segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Um vicio



Talvez tenha sido um vicio adquirido com a profissão. A cada dia de trabalho, diante de uma nova pauta, um assunto desconhecido a ser pesquisado e descoberto, diante de mais uma folha em branco do Word. Novas pessoas a entrevistar, novas histórias a ouvir, novos contatos a fazer, novos caminhos a percorrer até se chegar a mais uma fonte. Como eu gosto do jornalismo, da informação e do direito de, a cada dia, não saber absolutamente nada sobre um determinado assunto e voltar para casa cheia de conteúdo novo. Conhecimento que não tem preço, embora me paguem por ele.

Talvez tenha sido “culpa” do sonho de viver na Itália, de ter largado tudo para começar de novo; uma outra língua, novos desafios e me deparar com o mais absoluto desconhecido. Ao entender como funciona uma nova cidade, outras leis, outras formas de estudar, trabalhar, paquerar, conversar, cozinhar. Convivências, caminhos, ruas e paisagens totalmente novos para mim. Expressões, gírias, costumes... um novo mundo a compreender. Com curiosidade, com paixão e entusiasmo por um universo fascinante, com o qual eu sonhava ha tempos.

Talvez o vicio seja mesmo pela sensação de satisfação ao olhar para trás e me dar conta de tudo o que superei, do quanto eu aprendi e cresci, de todas as coisas que fiz, dos problemas que resolvi, das vitorias que tive em cada reunião apresentando um novo projeto ao cliente em outra língua, morrendo de medo por dentro. A cada discussão que tive para reconhecer os meus direitos como, olha que novidade era, cidadã italiana. Ou ao ler a minha tese de pós graduação, produzida ha 4 anos, e perceber que, além de fazer sentido, também foi bem escrita, mesmo que fossem aqueles os meus primeiros meses de Itália, com o idioma ainda capenga nas normas formais, com a cabeça a mil em meio a tanta novidade e com o coração mais que dividido entre dois continentes.

Mas talvez também seja em decorrência daquele frio na barriga ao ver o Duomo di Milano, ou ao respirar os ares de Roma, ao ver os campos verdes da Toscana, o outono amarelinho pelos parques da cidade ou a imagem de qualquer canto da Sardenha, lugar mais lindo do mundo, que remete às minhas origens e me faz perder as palavras. Ou pela sensação de desembarcar mais uma vez em uma cidade desconhecida, pronta a explora-la, a descobri-la e a aproveita-la da maneira mais intensa possível. Não se trata apenas de belas paisagens, mas de um conjunto de sensações que só se tem ao se deparar com o novo, com a solidão, com a vontade de caminhar e de não parar no tempo em um só lugar.

E talvez por tudo isso eu não tenha encontrado a vida de antes em Belo Horizonte. Talvez porque a Cristina de antes não esteja mais aqui. E a inquietude, a sede pelo novo e a inadequação me levam, mais uma vez, de volta ao que eu sempre sonhei, sem mesmo entender porquê. Hoje, cinco anos depois, eu sei bem os motivos que me levam de volta e também aqueles que farão voltar a cada vez que a saudade apertar.

Estou pronta, mais uma vez, para suprir o vicio de  começar de novo. Sabendo, melhor agora do que da primeira vez, o que todo recomeço comporta. Ninguém nunca me disse que seria fácil, nunca foi e sei que não será, mas, embora pareça clichê, a vida é uma só, e não estou disposta a perder noites de sono sem tentar. Eu acredito nos meus sonhos e estou disposta a pagar pra ver. Que venha, de novo, o novo!

4 comentários:

  1. Lindo... Parabéns e sucesso sempre!!

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  2. Ettaaa ferro... cada texto lindo!!!! =)))
    Mooo saudade :)) ciça

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    1. Saudade virou meu sobrenome, Biruzinha! Bjao! =)*

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